Tuesday, May 10, 2005

 

Um esforço enorme

A divulgação de resultados como o do PISA é oportunidade para o acusação recorrente de que "a nossa escola não presta" ou de que "a educação vai pelas ruas da amargura" em Portugal.
É bom que se façam estudos como os do PISA, mas é também indispensável que se saibam ler.
O PISA só diz o que diz, não diz aquilo que o leitor dos resultados tem que levar consigo no acto de ler. Por exemplo, não diz que:
Estamos a dar o 12º ano a alunos cujo património escolar da família é a 4ª classe ou, já em menos casos, o 6º ano. Quantos países estão a fazer o mesmo?
Estamos a escolarizar os filhos de uma população que há 30 anos ainda tinha 30% de analfabetos e hoje ainda tem 10%, e tem ainda níveis escandalosos de iliteracia e uma analfabetismo mais ou menos militante contra a Matemática e as Ciências. Quantos países estão a fazer o mesmo?
Estamos a ensinar alunos em cujas casa não há livros, cujas famílias não vão ao cinema e menos ainda ao teatro e muito menos ainda a exposições. Quantos países estão a fazer o mesmo?
Estamos a tentar ensinar alunos de uma sociedade que não tem interesse pelo saber, onde a escola só serve para tirar diplomas, onde o estudo só serve para obter bons empregos, e nunca para ser mais eficaz na vida, tanto pessoal como social. Quantos países estão a fazer o mesmo?
Estamos a "obrigar a aprender" um número elevadíssimo de alunos que dizem declaradamente que «se querem que eu ande na escola, deviam pagar-me», pois «que é que eu ganho com isto?». Quantos países estão a fazer o mesmo?
Temos uma escola que explodiu em número de alunos e, necessariamente, explodiu também em número de professores, mas sem que estes tivessem sido formados para o exercício da profissão, antes foram engraxados para parecem em condições. Quantos países estão a fazer o mesmo?
Estamos a ensinar com escolas regidos por uma legislação que não só não facilita como até dificulta o exercício da função. Quantos países estão a fazer o mesmo?
E podíamos continuar. Mas chega. É mais que suficiente para dizer, ao arrepio do que vai na moda, que a nossa escola tem feito um esforço enorme, gigantesco, e com ele tem conseguido aquilo que nunca tinha sido obtido até agora. Porque, repita-se, é falso que a escola de antigamente fosse melhor do que a actual.
O que não invalida, é evidente, que a escola actual tenha grandes problemas e que estes precisam de ser enfrentados. Mas a verdade é que quem parte de falsos diagnósticos, ou de análises preconceituosas, dificilmente pode encontrar um ponto de apoio para uma intervenção que, ainda por cima, muito dificilmente pode saber para onde vai. Porque quem não sabe donde vai, como poderá encontrar o caminho para onde há-de ir?

Sunday, May 08, 2005

 

Um esforço enorme

A divulgação de resultados como o do PISA é oportunidade para o acusação recorrente de que "a nossa escola não presta" ou de que "a educação vai pelas ruas da amargura" em Portugal.
É bom que se façam estudos como os do PISA, mas é também indispensável que se saibam ler.
O PISA só diz o que diz, não diz aquilo que o leitor dos resultados tem que levar consigo no acto de ler. Por exemplo, não diz que:
Estamos a dar o 12º ano a alunos cujo património escolar da família é a 4ª classe ou, já em menos casos, o 6º ano. Quantos países estão a fazer o mesmo?
Estamos a escolarizar os filhos de uma população que há 30 anos ainda tinha 30% de analfabetos e hoje ainda tem 10%, e tem ainda níveis escandalosos de iliteracia e uma analfabetismo mais ou menos militante contra a Matemática e as Ciências. Quantos países estão a fazer o mesmo?
Estamos a ensinar alunos em cujas casa não há livros, cujas famílias não vão ao cinema e menos ainda ao teatro e muito menos ainda a exposições. Quantos países estão a fazer o mesmo?
Estamos a tentar ensinar alunos de uma sociedade que não tem interesse pelo saber, onde a escola só serve para tirar diplomas, onde o estudo só serve para obter bons empregos, e nunca para ser mais eficaz na vida, tanto pessoal como social. Quantos países estão a fazer o mesmo?
Estamos a "obrigar a aprender" um número elevadíssimo de alunos que dizem declaradamente que «se querem que eu ande na escola, deviam pagar-me», pois «que é que eu ganho com isto?». Quantos países estão a fazer o mesmo?
Temos uma escola que explodiu em número de alunos e, necessariamente, explodiu também em número de professores, mas sem que estes tivessem sido formados para o exercício da profissão, antes foram engraxados para parecem em condições. Quantos países estão a fazer o mesmo?
Estamos a ensinar com escolas regidos por uma legislação que não só não facilita como até dificulta o exercício da função. Quantos países estão a fazer o mesmo?
E podíamos continuar. Mas chega. É mais que suficiente para dizer, ao arrepio do que vai na moda, que a nossa escola tem feito um esforço enorme, gigantesco, e com ele tem conseguido aquilo que nunca tinha sido obtido até agora. Porque, repita-se, é falso que a escola de antigamente fosse melhor do que a actual.
O que não invalida, é evidente, que a escola actual tenha grandes problemas e que estes precisam de ser enfrentados. Mas a verdade é que quem parte de falsos diagnósticos, ou de análises preconceituosas, dificilmente pode encontrar um ponto de apoio para uma intervenção que, ainda por cima, muito dificilmente pode saber para onde vai. Porque quem não sabe donde vai, como poderá encontrar o caminho para onde há-de ir?

Monday, April 25, 2005

 

A velha escola e a nova

Não sou, nem de longe, daqueles que pensam que a nossa escola, a escola de hoje, é uma miséria comparada com a escola de há umas décadas atrás, dita vulgarmente como "a escola do nosso tempo".
Não. A nossa escola tem problemas, mas não é pior que a escola de então. É preciso ter perdido a memória para pensar que a velha escola era melhor que a actual. O que se costuma fazer é comparar os melhores resultados de então com os piores resultados de hoje, mas isso é fazer batota.
A escola de há 40 anos, por exemplo, tinha (grosso modo) 30% dos alunos possíveis, o que significa que excluía 70%. A escola de hoje tem lá 70% dos alunos possíveis, o que significa que tem mais 40% ou que só exclui 30%. Se tirarem à escola de hoje os 40% de alunos que lá estão "a mais" em comparação com a velha escola, é mais que seguro que a escola de hoje fica muito melhor que a anterior.
A nossa escola é capaz de escolarizar mais 40% de alunos que a escola anterior. E isso é um resultado significativo, que só passa despercebido a quem tem dificuldades no olhar.
A velha escola excluía também os professores que não queria. Se a nossa escola excluir os professores que não quer (não digo que deva fazê-lo), talvez os resultados se tornem superiores.
Não, não é verdade que a velha escola se afirme imediatamente como melhor que a actual. É até possível, com fundamentação objectiva, dizer que a escola actual é melhor.
A verdade é que, quando olhamos para os resultados da velha escola, não vemos essa extraordinária qualidade que nos apregoam.
Avaliamos os índices de iliteracia e os resultados são catastróficos. Se os alunos saíam todos tão sábios e tão inteligentes, que foi feito deles que, agora, ficaram quase todos iletrados funcionais?
Quando olhamos os índices de formação e qualificação da nossa população activa, ficamos humilhados perante a Europa e o Mundo desenvolvido. Onde estão os extraordinários resultados da velha escola?
Quando vemos as pessoas que vão responder a concursos de televisão, que são entrevistadas em inquéritos de rua, que mostram de outras mil maneiras a sua capacidade de resposta, não conseguimos encontrar os milagres da velha escola. Para onde foram?
Quando olhamos para a nossa população activa e procuramos as capacidades que fazem falta: aplicação a novas situações, disposição para inovar, capacidade para trabalhar com outros, disponibilidade para aprender, etc., vemos que a formação que tiveram "naquele tempo" produziu como resultado aquilo que hoje nos prende à incapacidade de evoluir.
A nossa sociedade não reconhece grande valor ao saber, embora mostre o maior interesse por títulos, não pretende aprender embora pretenda conservar as posições adquiridas, não quer mudar mas espera conservar tudo o que tem, etc. Foi esta sociedade que a escola anterior produziu e, sejamos justo, reproduziu. Onde estão os supostos brilhantes resultados da escola de ontem?
Quando olhamos o que as pessoas lêem, os programas de televisão que preferem, os discos que fazem maior sucesso, os filmes que (não) vêem, etc., temos de perguntar pelos resultados heroicos da tão cantada velha escola.
Há, é ecidente, um monumental erro de avaliação, ou de perspectiva.
São, é evidente, os representantes de uma pequena minoria de então que agora SE quer ver ao espelho na enorme maioria dos escolarizados de hoje. Mas isso é, mais uma vez, fazer batota. Nem ontem a média era aquilo que hoje, com base nos melhores, se supõe que era, nem hoje a média é aquilo que, com base nos piores, se afirma que é. Sem a mínima dúvida, a escola de hoje tem tantos alunos brilhantes como a de ontem. Não, tem mais, muito mais.
Não é verdade que os alunos de hoje saibam menos que os de ontem. Pelo contrário. Embora possa ser verdade que os alunos de hoje, em geral, percam na comparação com os de ontem em alguns aspectos. Mas não no geral. Tenho disso a maior certeza, embora não haja estudos que demonstrem o que digo - mas também não há os que demonstram o contrário.
Repito. A escola de hoje tem problemas. Que devem ser resolvidos. Mas não é um problema o ela ser pior que a de ontem. Pelo contrário, a afirmação de que ela é pior é parte não só do problema como da nossa incapacidade para alterar o que deve ser mudado, isto é, para fazer o que há a fazer.

Thursday, March 31, 2005

 

Recentrar a escola

Para que a escola possa cumprir as suas funções, é necessário recentrá-la. (Não basta centrar o Sistema Educativo na escola.) É preciso recentrar a escola no acto pedagógico eficaz e eficiente.É certo que a escola é, ou parece, funcionar com base na aula. Mas eu não falo de aula, mas, repito, de acto pedagógico eficaz e eficiente: a aula, a visita de estudo, uma prova de desporto escolar, uma programa de rádio escolar, a organização de uma exposição ou de um colóquio... eficazes e eficientesE digo "eficaz e eficiente" porque não basta que uma aula seja "dada", é preciso que os alunos aprendam, que haja uma diferença entre o antes e o depois. E que essa diferença seja a desejada e seja obtida com uma racionalidade dos meios investidos.Ora basta olhar para muito do que se passa na escola para vermos que há professores que ensinam sem que os alunos aprendam, há todo um discurso negativo sobre os alunos e a nova geração e não há sequer um pensamento estratégico sobre o que fazer com eles, há uma retórica docente que dá alguma tranquilidade mas que não tem qualquer valor senão para a própria escola.É necessário olhar a escola como uma unidade destinada a produzir certos efeitos pessoais e sociais. Por isso, a escola em primeiro lugar e a sociedade no seu conjunto, também, têm de saber o que à escola cabe fazer e em que medida o faz. Porém, atrevo-me a dizer que parece ninguém saber do que se trata, a não ser através de um discurso sem conteúdo.Além disso, deveríamos ver a escola a utilizar instrumentos variados de diagnóstico e medidas qualificadas de intervenção eficaz e eficiente, e a fazer uma avaliação de qualidade. A verdade, porém, é que esses instrumentos de diagnóstico em geral não existem e as terapias, para usar a metáfora médica, não passam de mezinhas do senso comum, e a avaliação não é mais do que uns papéis para satisfazer obrigações. (Falo da escola, não me refiro à aula.) Não admira, por isso, que as queixas sejam tantas e os insucessos tão elevados. E ninguém esteja contente.

Friday, March 25, 2005

 

Para um Governo

Para o mandato do Governo na Educação, há uma ideia simples mas que pode fazer História:
centrar a acção do Governo onde se faz educação.
E a educação (de que trata o Ministério) faz-se em dois lugares: na escola e no território educativo de base.
O território educativo de base é o concelho. Então, há que rever a legislação do Conselho Local de Educação e operacionalizar a acção do mesmo CLE como entidade estratégica de concertação local de uma política educativa articulada entre os vários parceiros. Não é a nível nacional que se podem fazer optimizações locais.
A escola é o grande local onde se faz educação. Assim como o Ministério da Saúde age através do Centro de Saúde e do Hospital, também o M. da Educação age através da escola. É a escola que faz ou não faz, que educa/ensina ou não, que obtém resultados ou não. Por isso, há que centrar aí o processo.
A escola, embora assumindo um projecto nacional, mas assumindo-se também como agente de política educativa local, deve ter um projecto e um plano de acção, deve torná-lo público (por exemplo na Internet), deve agir em parceria com os que são de facto seus parceiros, e deve prestar contas das suas realizações.
A escola não é apenas uma "coisa que funciona" sob a responsabilidade do Ministério. Não é apenas terminal periférico de um monstro central. A escola é, quase nada ou muitíssimo, uma unidade activa com acção e reacção, pouca ou muita, às necessidades nacionais e locais. (E mundiais, mais não compliquemos aqui.)
O que precisamos é que a escola seja activa, e não que funcione por inércia, que tenha uma política responsável e que responda por ela, que saiba o que faz e que dê a sabê-lo.
Só por aí pode haver resultados inovadores. E históricos.
O resto, as supostas "reformas educativas", só valem na medida em que foram adoptadas pela escola. E a escola tem um poder imenso, para assimilar às suas práticas qualquer desejo de reforma.

Monday, March 21, 2005

 

escolassim???

Mas escolassim como?

Assim está bem? Ou assim não dá?
Assim ou assada?
Ou assim-assim?
Para melhor está bem, para pior já basta assim.

Só há duas coisas seguras:
hoje é o Dia da Poesia e ontem nasceu a Primavera.

Vamos à vida, que a vida é que conta.

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